Não entendi o que o Wim Wenders falou, diz Kleber Mendonça Filho em Berlim

Diretor diz ter estranhado fala do presidente do júri da Berlinale, de que o cinema é o oposto da política


Em passagem relâmpago por Berlim, Kleber Mendonça Filho, diretor de “O Agente Secreto”, que concorre ao Oscar em quatro categorias no mês que vem, afirmou que “se você fala de sociedade, você fala de política”.

“Eu não entendi o discurso do Wenders, na verdade”, diz o cineasta, pouco antes de receber uma homenagem na Embaixada do Brasil, nesta quarta-feira (18). “Wenders fez ‘Asas do Desejo’, sobre Berlim dividida. Não entendi o que aconteceu.”

Ele, que está na capital alemã por compromissos profissionais, sem relação com a Berlinale, comentava o impacto de uma declaração do presidente do júri desta edição do festival.

Na semana passada, em entrevista prévia à abertura do evento, o cineasta alemão afirmou que o cinema “era o oposto da política”. Wenders tentava defender o grupo da pergunta de um jornalista, que pediu uma posição do júri sobre o “genocídio em Gaza”.

O questionamento foi seguido de uma insinuação sobre o fato de o principal patrocinador do festival ser o governo alemão, que não reconhece a atuação de Israel como genocídio.

“Não sei como responder. Para mim, é tão natural. Eu nunca iria para um festival e diria ‘não vou falar de política’, ‘não vou falar usando consoantes’. Consoantes fazem parte do discurso, da construção das palavras”, diz Mendonça Filho.

O pernambucano, que segue agenda frenética na campanha de seu filme antes do Oscar, disse que tem falado muito de política neste momento. “Eu, o Wagner [Moura], a gente tem falado muito sobre isso. Lembrar, no Brasil, é um ato político”, afirma, em referência a uma das principais mensagens de sua obra, sobre a memória da ditadura do Brasil.

Minutos após falar com a reportagem, Mendonça Filho exerceu sua convicção na prática. Depois de ser apresentado ao público presente ao evento pelo embaixador Rodrigo Baena, o diretor rapidamente lembrou do histórico brasileiro recente.

“Devemos comemorar uma embaixada brasileira festejando o cinema. Até recentemente, isso não era possível”, disse, em clara referência ao governo Jair Bolsonaro. “Nós não podemos esquecer o que aconteceu. Porque o que aconteceu [no Brasil] ainda não foi realmente discutido”, disse, em um discurso feito em inglês. “É quase algo colocado debaixo do tapete. Precisamos discutir, lembrar disso.”

Durante o governo Bolsonaro, as políticas públicas de apoio ao cinema nacional sofreram interrupções. Naquele período, Mendonça Filho não economizou nas manifestações, liderando protestos contra o então presidente em eventos internacionais.

Nos últimos dias, outros profissionais do cinema brasileiro estranharam o posicionamento de Wenders e da própria Berlinale, que acabou alimentando a polêmica com uma desastrada carta em que defendia a não manifestação política dos artistas.

Karim Aïnouz, que concorre ao Urso de Ouro com “Rosebush Pruning”, e Eliza Capai, do documentário “A Fabulosa Máquina do Tempo”, discordaram do cineasta alemão.

Outro diretor brasileiro a se manifestar contra a posição do júri e do festival foi Fernando Meirelles, signatário de uma carta de reação junto com outros 80 profissionais de cinema que estão ou já passaram pela Berlinale.

Além de refutar a mensagem de Wenders, a missiva pede uma declaração pública do festival sobre a ação de Israel em Gaza, a exemplo do que já fez no caso do Irã e da Ucrânia.

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