Próximo de Maduro, procurador-geral da Venezuela renuncia

Saída de Tarek Saab representa maior mudança no alto escalão do regime desde chegada ao poder de Delcy Rodríguez

O procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, renunciou ao cargo nesta quarta-feira (25). Próximo de Nicolás Maduro, Saab chefiou o Ministério Público do país por nove anos e era conhecido por pedir a prisão de opositores políticos da ditadura.

Sua saída representa a maior mudança no alto escalão do regime desde a captura do ditador pelos Estados Unidos e a chegada ao poder de sua vice, a líder interina Delcy Rodríguez. A renúncia de Saab, 63, foi anunciada pelo presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, irmão de Delcy.

Segundo o presidente do Legislativo, o órgão será comandado por um interino até que um substituto seja escolhido, e o agora ex-procurador-geral ficará no cargo de defensor do povo, cuja função é fiscalizar o governo para garantir o cumprimento de direitos humanos.

“Tarek William Saab desempenhou um papel central na perseguição sistemática que a Venezuela faz de opositores”, disse nesta quarta Juanita Goebertus, diretora para as Américas da ONG Human Rights Watch. “Sua saída do Ministério Público é uma boa notícia, mas colocá-lo no cargo de defensor do povo é um tapa na cara das vítimas. Uma reforma verdadeira exige a indicação de um procurador-geral que seja independente e comprometido com a soltura de todos os presos políticos.”

Saab se envolveu com o movimento fundado pelo então tenente-coronel Hugo Chávez desde o início do chavismo, nos anos 1990. De ascendência libanesa, budista e autodenominado “poeta da revolução”, assumiu o Ministério Público em 2017, já durante o segundo mandato de Maduro.

Ele substituiu Luisa Ortega Díaz, procuradora-geral vista como opositora de Maduro no contexto da decisão do ditador de esvaziar a Assembleia Nacional naquele ano, então dominada pela oposição, ao criar uma Assembleia Constituinte. Um dos primeiros atos de Saab no cargo foi pedir a prisão da antecessora, a quem acusou de corrupção. A advogada fugiu para a Colômbia.

Em entrevista à Folha em 16 de janeiro, dias depois da invasão americana que terminou com a captura de Maduro, o procurador-geral disse que “algo do que foi feito em Gaza ocorreu na Venezuela”.

“O bombardeio de instalações e edificações civis, com a morte de pessoas que estavam dormindo naquele momento; a desproporção do uso indiscriminado de uma força praticamente atômica contra alvos humanos. Nicolás Maduro ganhou as eleições. Ele havia sido reconhecido pela maioria dos países do planeta”, disse, acrescentando que “os países que se prestaram a não reconhecer o presidente Nicolás Maduro abriram o caminho para esse bombardeio”.

Na mesma entrevista, Saab havia dito que seu trabalho não foi afetado pela pressão americana que os Estados Unidos exerceram sobre a Venezuela após a invasão.

A saída do procurador-geral acontece dias depois da aprovação de uma lei de anistia que deve tirar da cadeia uma série de presos políticos enviados ao cárcere a pedido de Saab. Segundo a organização de direitos humanos Foro Penal, a Justiça venezuelana já liberou 109 pessoas com base na lei, mas há mais de 1.500 pedidos de soltura.

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