ONU aponta risco de limpeza étnica na Cisjordânia após recorde de 36 mil palestinos deslocados em um ano

Relatório registrou 1.732 episódios de violência cometidos por colonos de novembro de 2024 a outubro de 2025

A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou nesta terça-feira (17) para o risco de “limpeza étnica” na Cisjordânia ocupada por Israel, após o deslocamento forçado de mais de 36 mil palestinos em um ano. O governo de Binyamin Netanyahu vem adotando medidas para ampliar o controle israelense sobre o território, e o órgão fez um apelo para que Tel Aviv interrompa imediatamente a expansão dos assentamentos.

O relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), que abrange o período de novembro de 2024 a outubro de 2025, diz que o deslocamento desta quantidade de palestinos “constitui uma expulsão em massa de magnitude sem precedentes”.

O documento aponta que esse quadro, somado ao êxodo em larga escala na Faixa de Gaza, “parece indicar uma política israelense coordenada de transferência forçada em massa” nos territórios ocupados, levantando sérias preocupações quanto a uma possível “limpeza étnica”.

A Cisjordânia é ocupada militarmente por Israel desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e os palestinos que vivem ali estão sujeitos à lei militar israelense em alguns casos. Como os colonos judeus no local, por sua vez, estão sujeitos à lei civil, organizações como a Anistia Internacional acusam Tel Aviv de operar um regime de apartheid na região.

O território é considerado pela comunidade internacional como o centro para um futuro Estado palestino, que teria capital em Jerusalém Oriental.

No mês passado, o alto comissário das Nações Unidas para Direitos Humanos, o austríaco Volker Türk, citou a intensificação de ataques contra palestinos, a destruição sistemática de bairros inteiros, a restrição à ajuda humanitária e as transferências forçadas como fatores de agravamento da crise na Cisjordânia.

O relatório divulgado agora também mostra o avanço significativo dos assentamentos. Segundo o documento, foram aprovadas ou iniciadas 36.973 unidades habitacionais em Jerusalém Oriental ocupada, além de outras 27.200 no restante da Cisjordânia.

Segundo a ONU, a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia alcançou, em 2025, seu nível mais alto desde 2017, quando a organização internacional começou a coletar esses dados.

Atualmente, mais de 500 mil israelenses vivem na Cisjordânia —sem incluir Jerusalém Oriental— em meio a quase 3 milhões de palestinos. Esses assentamentos são considerados ilegais segundo o direito internacional.

A escalada da violência nos territórios palestinos intensificou-se após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que desencadeou a guerra na Faixa de Gaza. O cenário de tensão persiste apesar do cessar-fogo em vigor desde 10 de outubro.

No período analisado, a ONU registrou 1.732 episódios de violência cometidos por colonos, com vítimas ou danos materiais, ante 1.400 no intervalo anterior, entre novembro de 2023 e outubro de 2024.

“A violência dos colonos continuou de forma coordenada, estratégica e amplamente impune, com papel central das autoridades israelenses”, aponta o relatório. O documento ressalta ainda que a “transferência ilegal” de palestinos configura crime de guerra e, em determinadas circunstâncias, pode equivaler a crime contra a humanidade.

Türk instou Israel a acabar imediatamente com a expansão de assentamentos, retirar os colonos e pôr fim à ocupação. Por fim, o relatório alerta para o risco crescente de deslocamento enfrentado por milhares de palestinos de comunidades beduínas situadas ao nordeste de Jerusalém Oriental.

No mês passado, o gabinete de segurança de Israel facilitou a compra de terras na região por colonos judeus e criou novas hipóteses sob as quais militares podem fiscalizar áreas sob controle da Autoridade Palestina, que governa parcialmente a Cisjordânia. Também passou a administrar diretamente alguns locais religiosos.


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