Produtora de ‘Dark Horse’, filme sobre Bolsonaro, é alvo da Polícia Civil em SP

Prefeitura diz que colabora com as investigações; dona de empresa ainda não se pronunciou

A Polícia Civil de São Paulo realiza uma operação nesta segunda-feira (1º) na sede da Go UP Entertainment —produtora do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro (PL)—, em um endereço da dona da produtora, Karina Ferreira da Gama, na sede da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia e também em uma entidade presidida por Karina, o ICB (Instituto Conhecer Brasil).

A operação, autorizada pela Vara de Garantias do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), decorre de investigação da polícia sobre um contrato entre o ICB e a gestão Ricardo Nunes (MDB) na Prefeitura de São Paulo para o fornecimento de Wi-Fi gratuito.

A reportagem tenta localizar Karina para comentar o caso. Em nota, a prefeitura afirma que “colabora com investigações em andamento e segue à disposição das autoridades, tendo já prestado informações”.

A investigação trata dos crimes de frustração do caráter competitivo de procedimento licitatório, fraude na execução de contrato administrativo e emprego irregular de verbas ou rendas públicas, todos previstos no Código Penal.

A Polícia Civil abriu a apuração a partir de requerimento do Ministério Público, originalmente para apurar indícios de irregularidade no contrato de Wi-Fi do ICB, de R$ 108 milhões.

A linha de investigação da polícia até aqui é que o instituto de Karina foi contratado irregularmente pela prefeitura, por um valor acima do praticado pelo mercado, e que houve pagamentos sem que os serviços fossem prestados. O conjunto de ações teria servido para desviar recursos do município e, segundo a polícia, há suspeita de que parte do dinheiro tenha ido para a produção do filme sobre Bolsonaro.

A polícia afirma que os elementos de inteligência financeira colhidos até este ponto da investigação indicam a potencial ocorrência de financiamento cruzado ilícito, com envio de recursos do instituto para a produtora.

No contrato com a gestão Nunes, cada ponto de Wi-Fi contratado por meio do instituto custou R$ 1.800. A Polícia Civil afirma que a Prodam, empresa pública municipal de tecnologia da Prefeitura, presta serviços idênticos pelo custo de R$ 230 para implantação por ponto e R$ 306 para manutenção mensal.

Por meio de nota, a Polícia Civil afirmou que “o Instituto Conhecer Brasil é o principal alvo da apuração”.

“Por determinação judicial, as equipes cumprem mandados de busca e apreensão para recolher documentos físicos e digitais, equipamentos eletrônicos, registros financeiros e outros materiais que possam contribuir para o avanço das investigações. Não há prisões. As diligências prosseguem”, diz a nota.

Policiais estiveram na casa de Karina, na Vila Brasilândia, zona norte da cidade, no início da manhã. Na Prefeitura, o alvo foram os gabinetes da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, na Rua Líbero Badaró, no centro. A polícia buscou computadores, celulares e servidores.

O prefeito foi informado, segundo a Folha apurou, que todos os documentos levados da secretaria foram em meios digitais e constavam em processos públicos.

Conforme a Folha informou no último dia 28, a polícia havia requerido à Justiça acesso a dados financeiros de Karina e da produtora no âmbito das investigações.

Anteriormente, Karina negou que o filme sobre Bolsonaro tenha recebido dinheiro de pessoas ou empresas brasileiras, seja verba pública ou privada, e disse que a contratação pela Prefeitura de São Paulo se deu de maneira regular, sem ligação com “Dark Horse”.

Na nota divulgada nesta segunda-feira (1º), a gestão Nunes diz que “todo o material requisitado” já havia sido disponibilizado às autoridades e é de acesso público por meio da prestação de contas do município.

Diz ainda que, dos 3.200 pontos de wifi contratados, apenas 52 estavam off-line nesta segunda e passavam por manutenção e que a contratação do Instituto Conhecer Brasil seguiu os princípios da legalidade, transparência e economicidade e que, quando o chamamento público ocorreu, em 2024, “não havia sequer produção do filme mencionado”.

‘Consistentes suspeitas’

“Dark Horse” (azarão, em inglês) trata da trajetória de Jair Bolsonaro, com destaque para a facada sofrida em 2018. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, pediu recursos para financiamento do longa-metragem a Daniel Vorcaro, do Banco Master.

O portal Intercept Brasil revelou que Vorcaro repassou R$ 61 milhões para o longa-metragem. A Polícia Federal investiga se parte do dinheiro foi usado para financiar gastos do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos.

“Há consistentes suspeitas de confusão patrimonial [entre o instituto e a produtora] e de que os recursos públicos do programa ‘WiFi Livre SP’ tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme, utilizando as contas das empresas subcontratadas e das demais organizações sociais geridas pela investigada para a lavagem dos valores desviados do erário de São Paulo”, afirma o ofício assinado pelo delegado, enviado à Vara Regional de Garantias do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo).

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