Anúncio de concurso divide opiniões entre avanços e defasagem na rede estadual
Enquanto novas vagas regulares trazem alento após oito anos sem concurso, ausência de menção clara a modalidades específicas e falhas na logística de apoio preocupam a categoria

O recente anúncio do novo concurso público pela Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar do Amazonas (Seduc-AM), prevendo a abertura de 7.862 vagas para professores, pedagogos, equipes multiprofissionais, administrativo e operacional, gerou repercussão imediata em diversas categorias profissionais e no próprio público que pleiteia participar da seleção. Embora o certame represente um avanço aguardado desde 2018, servidores e especialistas apontam ressalvas importantes sobre o quantitativo anunciado e a infraestrutura logística oferecida pelo Estado.
Déficit histórico e sobrecarga de servidores
Para a Assistente Técnica da Educação do Estado, Cléia Branches, o total de vagas anunciado está muito abaixo da real necessidade da secretaria. Segundo ela, a Seduc-AM enfrenta uma severa defasagem de pessoal que afeta diretamente a qualidade do ensino e a saúde ocupacional dos trabalhadores, gerando sobrecarga. Branches pontua que aposentadorias, exonerações e o aumento da demanda de matrículas nos últimos anos criaram lacunas que os Processos Seletivos Simplificados (PSS) e as convocações de cadastros de reserva anteriores não conseguiram suprir de forma definitiva.
Outro ponto crítico alertado pela assistente diz respeito à rotina de trabalho das equipes de apoio. “Precisamos falar sobre a situação de alguns servidores, como psicólogos, assistentes sociais e nutricionistas, que precisam se deslocar entre diversas escolas para realizar seus atendimentos e utilizam recursos próprios para custear transporte e outras despesas. Essa é uma das necessidades fundamentais que o Estado precisa suprir”, destacou.
Ela enfatiza que a valorização da categoria vai muito além da base salarial e do piso nacional, exigindo que o Estado supra essas necessidades fundamentais de infraestrutura.
Desmembramento de vagas x demanda real
Carlos Madureira, 42 anos, professor da rede estadual e mestre em Geografia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), analisou as informações divulgadas sobre o concurso sob o ponto de vista estatístico, algo necessário, pois traz como foco estudo mais aprofundado sobre quantitativo de vagas anunciado de acordo com as áreas de atuação.
Ele aponta que, embora a publicação desta semana traga 5.174 vagas para professor regular (o que representa um aumento de 882 vagas em relação às 4.292 ofertadas em 2018), o texto do governo não menciona os cargos de Mediação Tecnológica nem de Educação Especial.
Madureira adverte que, caso haja um desmembramento futuro desse total para contemplar essas modalidades, as vagas efetivas de ensino regular sofrerão redução. O docente reforça o coro sobre a defasagem na rede estadual, lembrando que a lacuna de oito anos sem concursos gerou inúmeras vacâncias por aposentadorias, exonerações e mortes. “O quantitativo de vagas pode não suprir efetivamente a necessidade de professores do ensino regular na rede estadual do Amazonas”, alertou ele.
Apoio à saúde mental
A psicóloga Maria Eduarda Santos, 25 anos, também acompanhou a divulgação com grande interesse e ressaltou o papel essencial das equipes multiprofissionais na promoção da saúde mental, inclusão e suporte familiar no ambiente escolar. No entanto, ela confessa que esperava um volume maior de vagas para psicólogos destinadas à capital.
“Ainda assim, considero positiva a abertura do concurso e espero que este seja um passo importante para a ampliação da presença de psicólogos na rede estadual de ensino, permitindo que mais profissionais possam contribuir com a qualidade da educação e com o desenvolvimento integral dos estudantes”, afirmou Santos.
Ela cobra rigor nas próximas etapas. “Espero que o edital seja publicado e que todas as etapas do concurso sejam realizadas o quanto antes, com transparência e respeito aos candidatos. Também desejo que esse anúncio represente um compromisso concreto com o fortalecimento da educação pública e da valorização dos profissionais, e não apenas uma promessa associada ao período eleitoral”, finalizou.
